Lygia Fagudes Telles – Antes do Baile Verde

Lygia Fagudes Telles – Antes do Baile Verde

Fotografia Tem Visita Blog

Deixa eu avisar: a Lygia Fagundes Telles invadiu a nossa intimidade. Digo “a nossa intimidade” porque ela invadiu a sua também. A Lygia contista nos pegou no flagra. Ela nos expôs e depois foi embora. Estamos expostos e sozinhos. Antes do Baile Verde iluminou o nosso profundo vazio e, ao olharmos para ele iluminado, agora podemos constatar: está vazio mesmo.

Disponíveis. E como se exprimia bem, a sonsa. Contudo, há alguns anos, que enternecedor vê-la roendo as unhas quando se intimidava. Ou morder o lábio quando não sabia o que dizer. E nunca sabia o que dizer. “Vai desabrochar nas minhas mãos”, pensou emocionado até as lágrimas. Desabrochara, sem dúvida. Lançou-lhe um olhar. “Mas não precisava ter desabrochado tanto assim”.

Com um gesto lento, abotoou a gola do pijama. Levantou os ombros.

-Como esfriou.

(Conto A Chave, pg. 75)

Em dezoito contos o leitor se depara com a narrativa de momentos que antecedem alguma mudança na ordem, alguma quebra, algum rompimento muito sutil. Isso não se dá apenas no mundo concreto e externo, mas também -se não principalmente – no interior das personagens. Claro, a quebra e o rompimento fazem mesmo parte da estrutura da ficção e isso não é uma novidade. Mas Lygia Fagundes Telles mantém o seu foco nos bastidores das quebras corriqueiras e, além disso, ela inicia o incêndio sem ficar para assistir.

A subjetividade das personagens é mostrada através de uma forma concreta. Lygia nos mostra alguns dos caminhos para explorar o plano psicológico  fora dos recursos do fluxo de consciência e do discurso indireto livre – embora ela use este diversas vezes. Alguns narradores se assemelham ao câmera, e nós sabemos dos acontecimentos interiores pela expressão corporal, pelas imagens e pelos diálogos.

Falando nisso, não tem medo de usar diálogos como elemento fundamental  na exposição do enredo. Eles dão informações preciosas, mas nunca parecem elaborados para isso. Sem caráter forçado, eles caminham entre o corriqueiro e o o astuto naturalmente.

As situações criadas nos absorvem. Maridos que observam as  esposas se aprontando para uma noite sem eles, uma cantora com o seu pequinês em um quarto de hotel em Xangai, um homem hospedado numa pensão, a conversa entre duas mulheres desconhecidas em uma barca… Há alguns contos de suspense/terror (eu nunca sei nomear essas coisas), que são surpreendentes, um, inclusive, faz clara referência a Edgar Allan Poe.

Mencionar os contos rapidamente faria com que parecessem muito simples, quando na verdade não são.  Através das temáticas do abandono, da solidão, do amor e da morte, a escritora  expõe os vazios que consistem nos espaços existentes entre o “eu” e o “outro” – muitas vezes complexos e intransponíveis.

Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir com os outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul fica azul, numa sala vermelha, vermelho. Um dia se olha no espelho, de que cor eu sou? Tarde demais para sair porta afora. E desejando, covarde e miseravelmente desejando que ela se volte de repente para confessar, “Tenho um amante”. Ou então que, em vez de enfiar a espátula no livro, enterre-a até o cabo no coração. 

(Eu Era Mudo e Só, pg. 150)

Os contos desnudam as nossas relações ocultas com o que nos cerca. Mesmo na falta de identificação com alguma situação ou personagem, a nossa intransponibilidade fica exposta, vulnerável. Se não conseguíamos pensar nela por estar longe e perdida na abstração, Antes do Baile Verde vai fazer com que você a enxergue, estando ela presente em algum dos contos ou não.


Eu nem sei como dizer o quanto gostei desse livro. Acho que se tornou o meu preferido, e olha que o meu livro preferido era o mesmo há muito tempo! Os diálogos e as personagens são cativantes!É bom também lembrar que Antes do Baile Verde passou por muitas modificações de edição para edição, mudanças feitas pela própria escritora, que é bem crítica em relação as suas próprias obras. Ela pensa que os seus primeiros escritos são um desperdício de tempo, e que o escritor tem o direito de escolher aquilo que deve ser lido. Portanto, o livro é uma antologia, contos escolhidos pela própria Lygia.

A minha edição é da Companhia das Letras, publicada em 2009.


Sumário Índice do livro Antes do Baile Verde, pela editora Companhia das Letras, de Lygia Fagundes Telles.
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-Então é você que decide. Este anjinho não é nada, mas se toco nele vira anjo mesmo, com funções de anjo. Segurou-o com força pelas asas. – Quais ão as funções de um anjo?

Ela deixou cair na caixa a conta obstruida e escolheu outra. Experimentou o furo com a ponta da agulha.

-Sempre ouvi dizer que anjo é o mensageiro de Deus.

-Tenho uma mensagem para Deus – disse ele e encostou os lábios na face da imagem. Soprou três vezes, cerrou os olhos e moveu os lábios murmurejantes. Tateou-lhe as feições como um cego. – Pronto, agora é um anjo vivo.

-E o que foi que você disse a ele?

-Que você não me ama mais.

Ela ficou imóvel, olhando. Inclinou-se para a caixinha de contas.

-Adianta dizer que não é verdade?

(Conto Os Objetos, pg. 12-13)

Acompanhem mais trechos e detalhes dos contos lá no meu instagram! Visitem os outros textos e apoiem o conteúdo sobre livros, que são também uma forma de incentivo à leitura! Bejinho :).

 

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